Em palestra no Brasil, o premio Nobel de economia, Paul Krugman, voltou a se posicionar contrariamente à retórica da guerra cambial e em defesa da política americana de afrouxamento monetário. Segundo Krugman, o banco central americano não tem tempo para prestar atenção no que acontece lá fora, o termo guerra cambial é um completo equívoco e os brasileiros devem parar de se preocupar com essa “bobagem”. A postura do notável economista lembra o secretário do Tesouro Americano, John Connally, que reagiu aos ataques à política monetária americana afirmando que o “dólar é a nossa moeda, mas o seu problema”.

Passaram-se mais de três anos desde que o Ministro Guido Mantega proferiu a frase, reproduzida pelos noticiários internacionais, de que “vivemos uma guerra cambial”. Naquela época, a moeda brasileira estava se apreciando em relação ao dólar, impulsionada pelos fluxos financeiros de capital e pela especulação nos mercados de derivativos. O diagnóstico era que o afrouxamento monetário americano aumentou a liquidez global, incentivou a saída de capitais da economia americana e provocou volatilidade e bolhas de preços em diversos mercados como o mercado de moedas. Segundo o ministro, a taxa de câmbio brasileira sofria o impacto das operações de carry trade, que consiste em um investimento inter-moedas onde se forma um passivo (ou uma posição vendida) na moeda de baixas taxas de juros e um ativo (ou uma posição comprada) na moeda de juros mais altos.

Pode-se dizer, ao contrário do que pensa Krugman, que a retórica da guerra de moedas e do tsunami monetário teve serventia naquela determinada conjuntura. Pois, ao chamar a atenção para os efeitos da política monetária americana, as autoridades brasileiras evidenciaram as disfuncionalidades do sistema monetário internacional e seu caráter assimétrico. Ou seja, a política monetária americana é, sim, objeto de preocupação de todas as nações integradas ao sistema internacional. O uso do dólar como a moeda do comércio internacional, da denominação da riqueza financeira e da acumulação de reservas dos bancos centrais faz do Federal Reserve uma espécie de banco central do mundo, capaz de determinar a liquidez do sistema internacional e a taxa de juros básica que serve de referência para sistema.