Na semana que passou, o ex-presidente Lula voltou ao noticiário econômico por declarações ao La Repubblica (mal traduzidas na imprensa nacional) sobre sua preferência por combater a inflação sem recorrer ao desemprego, ao contrário do que pregam seus críticos. No mês passado, em visita ao New York Times, havia feito considerações ainda mais importantes: “Nós não queremos ser competitivos como a China é, onde não há programa de bem-estar social, onde não se tem obrigação para com os trabalhadores (…) e as pessoas ganham salários muito baixos”.

Com a política econômica sob bombardeio de diversos lados, e diante dos números decepcionantes do governo Dilma, vale resgatar o aspecto central da gestão Lula na economia:a maior sintonia entre objetivos econômicos e sociais. Atualmente escondida no pessimismo do debate conjuntural, esta relação parece importante para avaliar o pretenso esgotamento do modelo e algumas das alternativas (rechaçadas nas frases acima) propostas para substituí-lo.

São conhecidos os traços econômicos do período Lula: i) a condução exageradamente ortodoxa das políticas monetária e fiscal, justificada oficialmente pelo descontrole recebido em 2003; ii) a redução na vulnerabilidade externa, também possibilitada pelo quadro internacional favorável; iii) a apreciação cambial, fundamental para a queda da inflação e os ganhos de renda, mas que acentuou os problemas na estrutura produtiva; iv) uma gradual (e parcial) remontagem dos mecanismos de intervenção e coordenação estatais; e v) a inflexão anticíclica que encaminhou a recuperação após a crise no fim de 2008. Nenhum desses, no entanto, é mais importante do que a tentativa de associar crescimento e distribuição de renda.